Há uma série de forças empurrando o dólar para baixo, mas duas parecem ter acelerado a onda mais recente de desvalorização: os ataques de Donald Trump ao Federal Reserve e suas ameaças à Groenlândia, colocando em dúvida a coesão da aliança com a Europa.
Esta é a opinião de Barry Eichengreen, professor de economia e ciência política da Universidade da Califórnia – Berkeley, e um dos mais renomados pesquisadores da história do sistema financeiro internacional.
Em sua avaliação, existe ainda uma tendência de depreciação da moeda americana. “Muitos dos fatores que contribuíram para a depreciação no último ano – ameaças à independência do Fed, incerteza na política externa dos EUA – ainda estão presentes,” Eichengreen disse ao Brazil Journal.
Em seus livros e artigos, o economista tem argumentado que a história financeira demonstra que a predominância de uma moeda não é eterna.
“Bancos centrais, governos e empresas em todo o mundo estão buscando proteger-se do risco cambial, transferindo parte de seus pagamentos e ativos financeiros para fora do dólar,” afirmou. “O problema é que existem poucas alternativas em larga escala”.
Eichengreen é autor de Privilégio Exorbitante, livro sobre a ascensão – e possível queda – da moeda americana.
Com a crise de confiança do dólar, o economista vê o risco de uma restrição de liquidez nos mercados globais. Ele é cético em relação à possibilidade de as stablecoins se tornarem um instrumento viável de larga escala, como argumentou em um artigo recente.
A força do mercado acionário americano e a euforia com os investimentos em inteligência artificial não serão capazes de reverter a tendência de enfraquecimento da moeda americana, em sua opinião. “Os investidores estrangeiros compraram ações de empresas relacionadas à AI, mas, ao mesmo tempo, venderam títulos do Tesouro americano,” afirmou.
Trump vem dando sinais de que não se preocupa com a queda do dólar, e há especulações de que esta seria uma estratégia deliberada para aumentar a competitividade das exportações.
Para Eichengreen, seria um erro “cair na armadilha de pensar que esse Presidente e a sua equipe têm uma estratégia econômica coerente”.
A seguir, a entrevista.
Após uma queda logo depois do Liberation Day, em abril, o dólar recuperou parte das perdas ao longo do ano passado. Agora, está novamente em queda. Qual foi o gatilho para essa nova onda de depreciação?
Há múltiplos fatores em jogo, por isso é difícil apontar um único gatilho.
No cenário macroeconômico, havia a expectativa de que o Banco do Japão poderia aumentar os juros, enquanto o Federal Reserve poderia fazer uma redução.
Mas os mercados mudaram de lado de fato quando Trump atacou o presidente do Fed, Jerome Powell, no início de janeiro. Além disso, o Departamento de Justiça ameaçou intimar Powell [na investigação sobre os custos da reforma no edifício do BC americano].
Ameaças à independência do Fed são profundamente prejudiciais à confiança no dólar.
Em seguida vieram as ameaças de Trump à Groenlândia, trazendo indagações tanto sobre a coesão da aliança europeia com os EUA quanto sobre a sanidade mental do Presidente. Isso já seria suficiente para explicar a queda do dólar.
Todos sabemos como é difícil prever as flutuações cambiais de curto prazo, mas você acredita que a tendência ainda é de maior depreciação do dólar?
Sim, muitos dos fatores que contribuíram para a depreciação no último ano – ameaças à independência do Fed, incerteza na política externa dos EUA – ainda estão presentes.
Há rumores de que o Governo Trump gostaria de ver o dólar mais fraco para aumentar a competitividade externa. Mas isso iria na contramão de uma das prioridades do Governo, que é a redução do custo de vida. Corrija-me se eu estiver errado, mas tarifas elevadas somadas a um dólar mais fraco geralmente resultam em aumento da inflação.
Você está caindo na armadilha de pensar que esse Presidente e a sua equipe têm uma estratégia econômica coerente.
Eles querem tanto um dólar mais fraco para impulsionar as exportações quanto uma redução da inflação. Parecem não entender os princípios básicos da economia, segundo os quais esses dois objetivos são conflitantes.
As ações americanas, contudo, mantêm um bom desempenho, especialmente no setor de tecnologia. Atraem uma quantidade significativa de capital estrangeiro. Além disso, a economia americana está crescendo mais rápido do que se estimava. Esses fatores podem limitar a desvalorização do dólar?
Duvido. O dólar caiu cerca de 10% em 2025. Isso aconteceu apesar dos grandes fluxos de entrada no S&P500, impulsionados pelo entusiasmo em relação à inteligência artificial.
Os investidores estrangeiros compraram ações de empresas relacionadas à AI, mas ao mesmo tempo venderam títulos do Tesouro americano.
Os EUA têm um déficit fiscal primário de cerca de 5% do PIB. O cenário de longo prazo para as finanças públicas é preocupante. Acredita que o Governo Trump está disposto a tolerar uma inflação mais alta para assim aliviar o peso do endividamento?
Novamente, você está caindo na armadilha de imaginar que o governo Trump tenha uma estratégia econômica coerente.
Eles continuam a acreditar que podem cortar o desperdício, a fraude e os gastos governamentais desnecessários o suficiente para reduzir o déficit. Mas a experiência do DOGE [Department of Government Efficiency] deveria ter lhes ensinado o contrário.
Qual a sua opinião sobre a valorização do ouro? É um sinal de que existem poucas alternativas viáveis ao dólar como moeda de reserva?
É um sinal tanto da diminuição da confiança no dólar quanto da escassez de alternativas atraentes em larga escala.
Olhando para o futuro, o senhor acredita que a dominância do dólar nos mercados internacionais está realmente em risco?
Sim. Bancos centrais, governos e empresas em todo o mundo estão buscando proteger-se do risco cambial, transferindo parte de seus pagamentos e ativos financeiros para fora do dólar. O problema é que existem poucas alternativas em larga escala.
Algumas opções cogitadas, como uma moeda dos BRICS, são apenas especulação. Não há possibilidade realista.
Portanto, se os países reduzirem sua dependência do dólar e não houver uma alternativa viável, o resultado será a escassez de liquidez internacional e o encarecimento dos pagamentos internacionais.
O comércio e as finanças entre fronteiras vão se tornar mais difíceis. Foi o que aconteceu na década de 1930, quando a confiança nas principais moedas internacionais foi perdida.
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