O escritor francês Édouard Louis, de 33 anos, despontou em meados da década de 2010 com livros que se enquadram no gênero “autoficção”.
Através de narrativas vigorosas, ele comove leitores ao falar de suas experiências pessoais – as de um garoto pobre e gay criado em um ambiente violento e que ascendeu graças ao talento literário.
O espetáculo Mulher em Fuga, em cartaz até dia 8 no Teatro Raul Cortez/Sesc 14 Bis, em São Paulo, é uma adaptação inédita de duas de suas obras, Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (2021) e Monique se Liberta (2024). Só que, nestes casos, o autor torna-se coadjuvante e cede o foco a sua mãe, uma mulher oprimida por abusos constantes em uma persistente trajetória de superação.
A atriz Malu Galli e o ator Tiago Martelli interpretam respectivamente Monique e Louis na dramaturgia construída por Pedro Kosovski que ganha a cena sob a direção de Inez Viana.
A protagonista é uma das tantas representantes de uma classe baixa que enfrentou a maternidade precoce, a dependência econômica e o silenciamento progressivo. “São experiências que aproximam a história de Monique da de tantas brasileiras,” diz Martelli, também idealizador do projeto. “Estamos falando de um sistema que se repete em diferentes países e contextos sociais.”
Aos 55 anos, Monique abandona o terceiro marido, alcoólatra e violento como os anteriores. Agora, conta com o apoio do filho, o que não deixa de se revelar um problema por causa do abismo social formado entre eles. Monique se vê prestes a cair no domínio de outro homem, que, mesmo sendo seu filho e sem querer, lhe julga e cobra um preço.
“É uma mulher que teve a juventude roubada e, abrindo mão das realizações pessoais, nunca recebeu nada em troca,” disse Malu. “Pelo contrário, ela se doou à família e é vista como um porto seguro e disponível sempre que os homens decidem tê-la por perto novamente.”
Em Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique se Liberta, Louis estabelece um distanciamento na abordagem dos temas – afinal, abdicou do protagonismo – e vai além de suas diferenças com o pai e a discussão da sexualidade, tão explícitas nas demais obras. Com isso, deixa de ser seu próprio personagem e apura a visão de escritor.
As desigualdades de classes e gênero norteiam a adaptação feita por Kosovski. Mulher em Fuga dispensa a linearidade para mostrar a protagonista em diferentes fases até a conquista da redenção. Monique é uma pessoa que, sem oportunidade de escolhas, viu seu destino ser desenhado à revelia. Sustentou cinco filhos amparada por cestas básicas do governo e perdeu uma capacidade de sensibilização que afetou sua relação com Louis. “Você tem 55 anos, e a gente tenta recuperar todos os anos que nos foram roubados,” ela ouve do filho.
A óbvia incomunicabilidade entre os dois é bem representada na enorme mesa que se destaca no cenário criado por Dina Salem Levy e, frequentemente, coloca os personagens em extremidades opostas.
Mais explícita é a passagem em que o filho chega da escola sujo de sangue depois de ser vítima de bullying. A mãe, com o aspirador de pó ligado, não ouve o desabafo e ordena que ele troque de roupa porque “pobreza não tem nada a ver com sujeira”.
Um grande trunfo do espetáculo é a interpretação de Malu Galli, que, com característica naturalidade, promove uma empatia imediata com o público. Versátil, ela contrasta a amargura com lapsos de uma euforia juvenil e, no temperamento oscilante, espelha as diferenças com o filho. Diante da responsabilidade de ser um narrador, Martelli dá corpo e voz a um Louis interiorizado, preocupado em medir as palavras e convincente na introspecção de dosar as turbulências da mãe.
Édouard Louis nos palcos brasileiros não é novidade. No ano passado, duas peças inspiradas em suas obras estrearam no Rio de Janeiro: Eddy – Violência e Metamorfose, dirigida por Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky com base nos livros O Fim de Eddy (2014), História da Violência (2016) e Mudar: Método (2021), e Papaizinho, montada por Luisa Espindula e Caio Scot, que dialoga com Quem Matou Meu Pai (2018).
O próprio escritor subirá ao palco em março como uma das atrações da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Ele protagonizará uma dramatização de Quem Matou Meu Pai, encenada pelo alemão Thomas Ostermeier, no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros.
Outras adaptações de seus livros devem vir por aí – o que é natural diante de um autor em evidência que trata de assuntos pertinentes. Contrastes sociais, homofobia e relações familiares permeiam textos que servem de material propício ao teatro por serem construídos através de narrativas discursivas.
Mulher em Fuga, porém, carrega o diferencial de trazer à tona uma discussão feminista sem que a forte carga social e política seja colocada acima do sentimento. É a história de uma “mãe coragem” dos tempos atuais, afetada por situações fora de seu controle e que, incentivada pelo filho bem-sucedido, compartilha o seu sonho com uma plateia emocionada.
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