Os países da União Europeia (UE) aprovaram nesta sexta-feira (9), em Bruxelas, o acordo com o Mercosul, criando a maior zona de livre-comércio do mundo, apesar da oposição da França.
A decisão ocorre após meses de articulação política para assegurar apoio suficiente entre os Estados-membros, segundo diplomatas e fontes do bloco europeu.
Com a aprovação, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve assinar o tratado na próxima semana, durante evento no Paraguai. Antes disso, os governos dos 27 países da UE ainda precisam formalizar seus votos por escrito, procedimento esperado para as próximas horas.
Investir sem estratégia custa caro! Garanta aqui seu plano personalizado grátis e leve seus investimentos ao próximo nível.A Comissão Europeia e governos como o da Alemanha e da Espanha defendem o acordo como parte de uma estratégia para diversificar destinos de exportação. O objetivo é compensar perdas associadas a tarifas aplicadas pelos Estados Unidos e reduzir a dependência econômica da China.
O tratado também é visto como uma forma de assegurar acesso a minerais considerados essenciais, utilizados em cadeias produtivas estratégicas.
O acordo entre a União Europeia e o Mercosul une dois blocos econômicos que, juntos, somam cerca de 722 milhões de consumidores. O tratado de livre-comércio, reduz ou elimina impostos sobre importações, conhecidos como tarifas, com o objetivo de facilitar a troca de mercadorias.
Segundo o texto aprovado, 91% das tarifas incidentes sobre o comércio entre União Europeia e Mercosul serão gradualmente eliminadas.
Estimativas da Comissão Europeia indicam que as vendas europeias para o Mercosul podem crescer até 39%, com potencial de sustentar aproximadamente 440 mil empregos no continente.
A resistência ao acordo foi liderada pela França, maior produtora agrícola da União Europeia. O governo francês argumenta que o tratado tende a ampliar a entrada de alimentos com preços mais baixos, como carne bovina, frango e açúcar, o que poderia impactar produtores locais.
Na véspera da aprovação, o presidente da França reiterou a posição contrária ao acordo. Em dezembro, o país havia conseguido apoio da Itália e bloqueado avanços temporariamente.
Contra o acordo, produtores rurais mobilizam manifestações em vários países do bloco há dias. Houve bloqueios de estradas na França e na Bélgica, além de marchas na Polônia que acontecem nesta sexta-feira.
A ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, declarou que a disputa continua e que atuará para tentar barrar o acordo no Parlamento Europeu. Segundo ela, a votação pode ter margem reduzida.
Organizações ambientais também criticaram o tratado. A Friends of the Earth classificou o acordo como um pacto “destruidor do clima”.
A aprovação do acordo contou com negociações adicionais com a Itália. Entre as concessões acordadas estão a antecipação de 45 bilhões de euros em subsídios ao setor agrícola e a flexibilização da taxa de carbono aplicada a fertilizantes importados. Essa taxa é um mecanismo que busca precificar emissões associadas a produtos estrangeiros.
Sem o apoio italiano, a França não conseguiu formar a chamada minoria de bloqueio no Conselho da União Europeia. Para isso, seriam necessários ao menos quatro países que representassem, juntos, 35% da população do bloco. Apesar do apoio de Polônia, Hungria, Irlanda e Áustria, esse critério não foi atingido.
Em 2024, o comércio de mercadorias entre União Europeia e Mercosul alcançou 111 bilhões de euros, com valores distribuídos de forma equilibrada entre as duas regiões.
As exportações europeias são concentradas em máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte. Já os países do Mercosul vendem principalmente produtos agrícolas, minerais, celulose e papel.
Para reduzir resistências, a Comissão Europeia incluiu mecanismos de salvaguarda. Esses instrumentos permitem suspender importações de itens agrícolas considerados sensíveis caso haja impacto relevante no mercado interno.
O pacote também prevê o reforço dos controles de importação, especialmente sobre resíduos de pesticidas, a criação de um fundo de crise, a aceleração de programas de apoio aos agricultores e o compromisso de reduzir tarifas de importação sobre fertilizantes.
Após a etapa no Conselho, o acordo ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, o que, segundo estimativas, deve ocorrer até abril. Há, no entanto, iniciativas de eurodeputados para submeter o tratado à análise do Tribunal de Justiça da União Europeia, o que poderia atrasar o processo por vários anos.
O tema mobiliza diferentes correntes políticas no continente. Partidos de direita têm se aproximado das demandas do setor rural, enquanto setores de esquerda se posicionam contra o acordo por motivos sociais e ambientais.
O Partido Verde afirmou que o tratado “aprofundará as assimetrias econômicas, prendendo os países do Mercosul a um caminho de desenvolvimento baseado nas exportações agroalimentares e minerais”.
As preocupações ambientais também envolvem a Amazônia. O debate ganhou força após grandes tradings anunciarem a saída da Moratória da Soja, após pressões do Cade e do governo do Mato Grosso.
Os bastidores do mercado direto no seu e-mail! Assine grátis e receba análises que fazem a diferença no seu bolso.As negociações do acordo avançaram no fim de 2024, com atuação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de países europeus com forte perfil exportador, como Alemanha e Espanha.
Nos últimos meses, o tratado ganhou peso geopolítico diante das tarifas adotadas por Donald Trump e de sua postura contrária ao multilateralismo.
A aprovação ocorre poucos dias após a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e em meio a declarações envolvendo a Groenlândia, território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca e, consequentemente, à União Europeia.
Nesta sexta-feira, os embaixadores dos 27 Estados-membros indicaram as posições de seus governos. Pelo menos 15 países, representando 65% da população do bloco, votaram a favor, conforme exigido pelas regras da UE. As capitais receberam o prazo até as 17h em Bruxelas (13h em Brasília) para encaminhar a confirmação formal dos votos.
O post União Europeia aprova acordo de livre-comércio com o Mercosul; França fica de fora apareceu primeiro em Monitor do Mercado.


